CHOVE
Ao acordar, ouço os ruídos do meu último sonho misturados ao tamborilar da chuva no telhado. Levanto, espio pelas frestas da cortina. Mais uma vez, chove em Joinville. Afogada numa imensa onda de neblina, a cidade dói nos olhos de tão branca. Os óculos escuros são agora mais necessários do que nos dias ensolarados. A claridade da chuva fina é mais nociva do que o amarelo do sol e até mais do que a palidez da neve.
Quem me dera que essa garoa fosse neve – seria um alento às mãos com luva, ao chocolate quente, ao coração esperançoso, ao Natal que avança pelos dias. Mas não. A garoa joinvilense não consola ninguém, pelo contrário; rouba o conforto dos habitantes. As agulhas de água são geladas. O ar é úmido. O cobertor esquenta demais. As luvas são desconfortáveis. O chocolate quente é impertinente. E o Natal... apenas no alvorecer do verão.
O que mais combina é a amargura invejosa do café preto. Bebo o café forte imaginando o doce do chocolate, vivo na umidade da chuva esperando o alaranjado do sol, crio a esperança desejando a satisfação plena. Na fé do joinvilense brotam musgos.
O dia é de trabalho, Joinville começa a se mexer. Sapatos, calça social e camisa. Aos primeiros passos na calçada, meus pés são invadidos pela chuva deitada no cimento. Será outro dia trabalhando com os pés úmidos! Tento, sem sucesso, correr para não mergulhar na garoa que parece fina mas já engoliu tantos ternos secos, bem passados.
E agora? Qual a saída para mim, pobre joinvilense? Encurralada, procuro na bolsa. Pronto: está lá o meu pára-quedas para o abismo. O guarda-chuva! Agora sou mais uma entre as centenas de sombrinhas desfilando pelas ruas. Lisas, floridas, grandes, elegantes: o branco da neblina é colorido pelo abraço dos guarda-chuvas. Cada pessoa tem um deles com a cor que lhe dê novos ânimos. O meu é rosa, para me sentir caminhando num eterno crepúsculo de outono. Cada um faz sua alegria. Nós fazemos o nosso próprio dia de sol.
Escrito por Vanessa Bencz às 15h58
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