SOU AOS POUQUINHOS

25/10/2008

Me mudei!

http://garotadistraida.wordpress.com/
Escrito por Vanessa Bencz às 13h34
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13/07/2008

A gaiola no pássaro

 

Carrego uma gaiola dentro de mim. Dentro da gaiola, o pássaro assustado.

De quando em quando, acordo de madrugada num pulo. É o pássaro chorando. Se sente sozinho. Sua tristeza me percorre, esfria o sangue, amolece as panturrilhas. Mas às vezes o meu susto é pelo seu trinado alegre. Geralmente me acorda nas manhãs de sol em que durmo até mais tarde.

O nome do pássaro é Algodão-doce.

Algodão-doce canta junto com a flauta na música, silencia ao som do violoncelo, dá cambalhotas com o xilofone e assobia os violinos.

Ele também carrega uma gaiola dentro de si, uma prisão, seu luto pessoal.

O seu luto é inverso – há liberdade demais entre minhas costelas.


Escrito por Vanessa Bencz às 19h17
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22/06/2008

Relato de um sol eterno

 

 

A primeira pessoa que vejo, ao abrir os olhos pela manhã, é a minha irmã mais velha. Dividimos o mesmo quarto faz 23 anos. Ela dorme na cama à minha direita. Como se fosse meu braço direito, meu leste. Ela me amanhece.

Em pequena, eu tinha dificuldades para pronunciar seu nome. Me acostumei a chamá-la por uma simples sílaba: Di. Só eu a chamo assim, ela só atende ao apelido quando é dito pela minha voz. A alcunha necessita de tom musical, carga emocional e um riso no canto da boca que apenas eu sei dar.

Di é dois anos mais velha que eu. Quando eu tinha seis anos, minha tia fez para mim a fatídica previsão que os parentes sempre fazem para adivinhar as crianças da família:

- Essa menina vai dar baixinha. Sua irmã mais velha, não. Vai dar moça alta, de pernas compridas.

Escondi-me ainda mais na baixa estatura e na franja loira. Di era criança alta, bonita e precoce. Criança irreal de filme estrangeiro. Criança que sabe conversar sobre a previsão do tempo, o governo Collor e a queda da bolsa de valores. E eu mal sabia soletrar meu próprio nome. Tinha dificuldades com a letra s.

Tornei-me uma pré-adolescente tímida e egoísta. A lição de solidariedade veio pela minha irmã. Certa vez, no colégio, meus colegas riam de mim por um motivo que não lembro mais. Di chegou, fez um sermão com dedo em riste, e as crianças se calaram. Exceto por um menino gorducho e feioso, que teimava em continuar rindo. Di deu-lhe quatro murros na orelha, e o moleque se calara. Tempos depois, eu faria o mesmo pelo meu irmão mais novo.

No começo da fase adulta, Di precisou fazer uma cirurgia de emergência. Fui visitá-la no hospital e, ao vê-la na cadeira de rodas, desabei num choro frenético e desmaiei de pressão baixa. Saímos juntas do hospital, cada uma em sua cadeira de rodas.

Hoje em dia, Di e eu temos a mesma altura. Nós somos o mesmo território vasto de lembranças. Nossos sonhos se misturam de noite e nossa telepatia se entrecruza durante o dia. Di me amanhece.


Escrito por Vanessa Bencz às 19h40
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19/05/2008

UM CARDIOLOGISTA

 

ENTÃO: O POETA muniu-se do estetoscópio e passou a auscultar as palavras. Mal sabia que o fino retumbar de corações não pertencia aos substantivos, nem aos adjetivos, nem aos circunflexos; era o seu próprio miocárdio convulso. O poeta, comovido, pescou as palavras que lhes eram taquicárdicas. Escreveu:

 

Um choro pulsa em seu peito ferido,

Transbordando em triste oceano.

Doce mulher, que teme a efemeridade do sonho

Passará mil contas no seu rosário madrepérola.

 

A emoção em descobrir uma mulher em suas linhas só se compara à sensação do primeiro homem que olhou o céu escuro e teve medo da tempestade. Era daquelas mulheres que usam rendas, batem chinelas nos calcanhares secos e sussurram ferozes orações diárias.

 

Sim, sim: sou a mulher que tem a pele rebentada por moléstias-do-mundo, que prefere o sofrimento legítimo ao prazer forçado, e que faz rosários das lágrimas. Tantas delas...

 

O poeta temeu pela criatura miserável que colocara no mundo, este que deveria ser proibido para crianças. O criador como semelhança da criação.

 

Como um ato de vida, amassou as folhas rabiscadas. Ouvia rangendo os ossos de Tereza. O coração dela era um breve tiquetaquear de relógio envolvido em toalha. Após desvencilhar-se do estetoscópio, atirou o corpo da mulher pela janela.


Escrito por Vanessa Bencz às 19h00
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08/05/2008

A VIAGEM DE DONA GLÓRIA

 

Assistia televisão quando lembrou que ainda tinham roupas no varal. Já era fim de tarde, havia apenas trapos de sol, melhor recolher as blusas que secavam. Dona Glória levantou-se devagar – desde novembro as costas doíam muito – e foi até o quintal. Enquanto puxava as meias secas, viu que a janela da cozinha estava aberta. Precipitou-se para fechá-la, e foi aí.

De vez de alcançar a veneziana, dona Glória alcançou a si mesma. É que, sem querer, uma folha seca de árvore prendeu-se na sola de seu chinelo esquerdo. Aquele ruído de folha sendo arrastada transportou-a para uma lembrança longínqua, onde a dor nas costas não existia, nem a diabetes, nem o prateado nos cabelos, nem o leque de rugas ao redor dos olhos.

Voltou cinqüenta anos no tempo. Ainda era a mesma pessoa pensativa, quieta, dócil. Olhou para o próprio corpo e viu o vestido roxo de veludo. Luvas roxas. A barriga reta, sem os escombros das quatro gravidezes. Os seios espertos, a pele firme. Reconheceu ao seu redor a Sociedade Harmonia Lyra, os amigos tão jovens, misturados com a fumaça de cigarro. Uma orquestra se apresentava; no violoncelo, o seu querido Ademar tocava. Tão novo, tão vivo.

Então, quando foi cumprimentar seus pais que entravam no salão, escorregou numa folha seca de árvore, que deve ter entrado com o vento. Caiu no meio do salão, derramou o vinho, sujou todo o vestido. Neste momento, dona Glória transportou-se de volta para 2008, ao seu corpo pesado e difícil, cheio de cicatrizes e lembranças e marcas. Ela não quis reviver o vexame daquele dia no salão. Sentiu pena de si mesma...

...ao mesmo tempo que sentiu prazer em passear pelo tempo e reviver uma época que descansa no caixão. Esmagou a sensação de vexame do mesmo jeito que destruiu a folha seca, e continuou a sua vida, esperando reviver os tempos de sua infância, da infância dos filhos e da juventude antiga. Fechou a janela da cozinha, recolheu as roupas e procurou o verão pela noite que deitava.


Escrito por Vanessa Bencz às 18h44
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27/01/2008

Para as nossas mães

Dos Alicerces Maternos

 

Em pequena, não lembro ao certo da idade, eu gostava de me abraçar às canelas de minha mãe. Simples assim: via-lhe as canelas nuas e era com prazer urgente que grudava-me a elas. Andando, sentada, deitada ou fazendo compras, minha mãe aceitava que sua filha do meio pegasse carona em suas pernas.

Ela gostava de usar saia na altura dos joelhos. Saia jeans, saia xadrez, saia social. Mas, para mim, eram todas iguais. Meu sonho sempre agarrava-se cor-de-rosa às suas canelas depiladas.

Mamãe gostava de tricotar em silêncio, comprimindo os lábios e respirando pesado, lentamente. Eu sentava sobre seus pés e encostava-me. Era de uma melancolia cintilante ver a lã transformando-se em casaquinhos a partir das agulhas que mamãe manejava, num silêncio quente. Sua expressão era indecifrável para mim, náufraga naquele oceano de ingenuidade. Se fosse hoje em dia, eu saberia ler a angústia que se desenhava na testa de minha mãe.

Eu gostava muito de abraçar-lhe as panturrilhas enquanto ela cozinhava. Mamãe fazia o almoço com cara de braba – o que supus mais tarde ser tédio, e não brabeza. Hoje em dia, sei que não era só tédio. Era também submissão pétrea, lágrima coagulada na garganta, sonhos estourados pelas rugas recentes ao redor dos olhos. Eu, em criança, jamais entenderia essas emoções. Eu mal compreendia a história triste que se desenrolava entre meus pais. Entretanto, o consolo possível eu doava: o incansável abraço na altura que eu alcançava melhor.

- Mamãe, sua perna está áspera hoje!

- É que mamãe esqueceu de depilar, querida.

Ela deitava na cama, farta do seu dia amarelo, e eu deitava aos seus pés, admirando os grandes calos nos mindinhos.

- Mamãe, o que são essas coisas duras?

- São calos, querida.

- Galos?!

Estremecia ao imaginar galos picando os dedos de mamãe. Rezei algumas vezes para que Papai do céu não me castigasse com semelhante tortura.

- Mamãe, não tenha medo dos galos. Se aparecer algum, eu mordo.

- Está bem, querida – dizia ela, submersa na sua angústia impenetrável.

Minha mãe passava horas e horas assistindo a novelas, deitada na cama. Lembro-me que por muitas vezes achei enfadonho este hábito de deitar e assistir televisão. Eu tinha muita energia e cheguei a ceder: afastava-me das canelas reluzentes e ia brincar, aprontar, correr sobre a maciez da infância.

Mas chegou um dia em que eu comecei a apreciar as novelas. Assistíamos juntas. Rindo, ou sérias, ou preocupadas, ou discutindo.

- Não acredito que existam pessoas tão malvadas quanto Manuel Henrique, mãe! Olha o que ele faz com Gabriela Tatiana.

- Existem pessoas malvadas de verdade, querida.

Atormentava-me esta tristeza resignada. Muito mais tarde, quando desabou sobre mim o lamaçal da adolescência, isso chegou a ser motivo de brigas mortais entre a gente.

- Mãe, eu não admito que você deixe o pai fazer isso conosco!

- Ele é homem, minha filha. Homem gosta de mandar em tudo, ter o controle.

- Pois não vou deixar. Arrume suas coisas, vamos fugir de casa!

- Filha, vai assistir televisão.

Foi nas canelas de minha mãe que aprendi a gostar de novela, a fritar e cozinhar ovo, a fazer compras no supermercado, a ler revistas de mulher madura, a fazer trança no cabelo, a respirar fundo quando um homem fala sem pensar.

Foi nas canelas de minha mãe que passei a odiar caça-palavras, cigarro, pagode, livros sentimentais, lavar louça.

A partir das canelas de minha mãe, aprendi que uma mulher silenciosa por fora pode não ser silenciosa por dentro. Aliás, furtei essa característica para mim, assumindo as rugas e o respirar pesado de minha mãe quando atravesso períodos difíceis como falta de dinheiro, coração partido e menstruação.

- Mãe, você era tão triste quando eu era pequena. Hoje você é diferente, mais bonita e mais alegre.

- Não, filha, continuo a mesma. Foi você quem mudou.


Escrito por Vanessa Bencz às 21h23
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23/01/2008

Instruções para voar

Primeiro, lave as mãos. O legítimo vôo tradicional exige que você se desfaça do cheiro da caneta, da tinta, do sabonete, do carinho no gato, do mundo preso às linhas da palma das suas mãos. Lave as mãos, rápido, lave-as com água, e enxugue-as enquanto pensa numa cor que não existe mais.

Segundo, procure o céu mais próximo e abra os braços; crucifique-se numa lembrança boa, de preferência numa bem antiga, já com a cor do tempo. Tente reviver na cabeça a primeira braçada no mar num dia quente, o sangue de um dente que demorou para cair, o perfume daquele poema que enlouqueceu o seu coração. Abra demais os braços, deixe o prazer espreguiçar-se pelos seus músculos, opa, olhe uma pluma brotando nas suas costas.

Terceiro, imagine que o mundo é um balão cor-de-rosa com cheiro de jasmim. Então, é bom cuidar com os seus pés, o planeta está prestes a deslocar-se do seu eixo e você pode cair. Sim, é normal sentir o aroma da madrugada nesse estágio, afinal, as coisas mais fantásticas acontecem quando nossas pálpebras não agüentam mais o peso do dia, e o nariz perde-se pelos vales de fragrâncias do travesseiro. Cócegas? Frio? Estamos no caminho certo! Por Deus, comece agora a sorrir; o chão está se afastando da sua vida.

Quarto: mãe, obrigada por ter chorado aquele dia / eu gosto muito quando o vento pede pra eu fechar os olhos / liberdade torturante / sabe quando a gente não consegue se desgrudar do cobertor? / Isso é preguiça ou infância? / Eu quero todos os irmãos caçulas do mundo! / , assaltado imediatamente por esses obscuros presságios que assombram mesmo os pensamentos mais confiantes / Olha, tem uma estrela se findando / sendo imortal, o amor brinca de reinventar-se / janelas esquizofrênicas / EXPLODAM, DÁLIAS! / Qual o tamanho da sua natureza? / sementes / os gestos de amor são um doce museu / perdoe.

Quinto, abra os olhos devagar. Seus pés podem estar formigando, então sente-se. Respire fundo para acalmar o coração. Fique à vontade para que você possa saborear a sua aterrissagem.


Escrito por Vanessa Bencz às 15h02
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17/11/2007

De volta

QUEBRA-CABEÇAS NOTURNOS

 

 

Entrego a cabeça ao travesseiro e a anestesia geral percorre a minha epiderme, meus músculos e meu sangue. Borboletas essencialmente brancas voam duzentos metros rasos – dos meus pés ao último girassol do meu mais alto sonho. Sonhar é gostar muito de flores, giz de cera e cachecóis.

Adoro sonhar com manhãs ensolaradas e acordar com gosto de hortelã na língua; em dias assim o meu vocabulário é mais doce. Já me aconteceu de sonhar com um céu infinito e acordar rezando. Logo eu, ateísta enquanto de olhos abertos! Fecho os olhos e Nossa Senhora Aparecida desce até mim, faz crochê de estrelas e sussurra coisas que não se entende entre as luzes da consciência, apenas na incerteza do mar do sonho.

Simples assim: entrego a cabeça à fronha florida e de repente as margaridas podem ser obscuras. A flora e a fauna do meu inconsciente ganham vida autônoma e gostam de cantar em mandarim nas minhas asas. Os cães do meu oceano noturno são todos pastores. Geralmente, sou a ovelha mais peralta do grupo.

Certa vez, sonhei que o meu irmão caçula morrera. Acordei com o travesseiro inundado de lágrimas, as margaridas podres por causa do sal. Desde então, dou cobertores amarelos para ele no Natal. O sabor do trevo de três folhas esmagado volta à minha boca em todos os dois de novembro.

Já cheguei a sonhar com a minha própria morte. Não sei ao certo; acho que morri com uma apunhalada indolor nas costas. Enterrada sob edredons, ressuscitei numa quinta-feira às 14h38, com ressaca de algodão doce, rezando o terço nas minhas tranças.

Todas as vezes que rendo minha cabeça à primavera do travesseiro, peço a mim mesma que o tema da maré de sonhos mude as minhas noites durante toda a vida. Infinito, dê-me hoje um sonho incoerente. Então saberei que amanhã acordarei esclarecida.

Mundo, jogue sobre a minha cabeça toda a sua loucura e todos os simulacros noturnos, pois  devo minha maturidade aos sonhos que tive em menina. Os sonhos que terei agora construirão o balanço para a minha velhice amanhã. Haverá um dia em que haverá uma noite em que o meu mundo tomará um outro rumo, e a partir daí ele será oceânico, claro e eterno, assim como a minha vida, enquanto de olhos abertos.


Escrito por Vanessa Bencz às 13h41
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23/10/2007

CHOVE

 

Ao acordar, ouço os ruídos do meu último sonho misturados ao tamborilar da chuva no telhado. Levanto, espio pelas frestas da cortina. Mais uma vez, chove em Joinville. Afogada numa imensa onda de neblina, a cidade dói nos olhos de tão branca. Os óculos escuros são agora mais necessários do que nos dias ensolarados. A claridade da chuva fina é mais nociva do que o amarelo do sol e até mais do que a palidez da neve.

Quem me dera que essa garoa fosse neve – seria um alento às mãos com luva, ao chocolate quente, ao coração esperançoso, ao Natal que avança pelos dias. Mas não. A garoa joinvilense não consola ninguém, pelo contrário; rouba o conforto dos habitantes. As agulhas de água são geladas. O ar é úmido. O cobertor esquenta demais. As luvas são desconfortáveis. O chocolate quente é impertinente. E o Natal... apenas no alvorecer do verão.

O que mais combina é a amargura invejosa do café preto. Bebo o café forte imaginando o doce do chocolate, vivo na umidade da chuva esperando o alaranjado do sol, crio a esperança desejando a satisfação plena. Na fé do joinvilense brotam musgos.

O dia é de trabalho, Joinville começa a se mexer. Sapatos, calça social e camisa. Aos primeiros passos na calçada, meus pés são invadidos pela chuva deitada no cimento. Será outro dia trabalhando com os pés úmidos! Tento, sem sucesso, correr para não mergulhar na garoa que parece fina mas já engoliu tantos ternos secos, bem passados.

E agora? Qual a saída para mim, pobre joinvilense? Encurralada, procuro na bolsa. Pronto: está lá o meu pára-quedas para o abismo. O guarda-chuva! Agora sou mais uma entre as centenas de sombrinhas desfilando pelas ruas. Lisas, floridas, grandes, elegantes: o branco da neblina é colorido pelo abraço dos guarda-chuvas. Cada pessoa tem um deles com a cor que lhe dê novos ânimos. O meu é rosa, para me sentir caminhando num eterno crepúsculo de outono. Cada um faz sua alegria. Nós fazemos o nosso próprio dia de sol.


Escrito por Vanessa Bencz às 15h58
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05/09/2007

Conto fora do ar:

Participando de Concurso!


Escrito por Vanessa Bencz às 16h19
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15/08/2007

Conto fora do ar:

Participando de Concurso!


Escrito por Vanessa Bencz às 16h27
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26/06/2007

PERDIÇÃO

 

O ÔNIBUS ARRASTÁVA-NOS pela avenida quente. Os passageiros, inchados pelo calor, balançavam-se com as arrancadas do motorista. Ombros úmidos cutucavam-me; alguém respirava devagar na minha nuca. Maldito prazer forçado.

 

Do alto do colo de uma mãe, a criança observava, inquieta. No meio de uma horda apertada de passageiros, ela me achou, me chamou. Sem sobressalto, senti a carícia de seus olhos. Ela estava ruborizada, com os cabelos umedecidos a grudarem pelo pescoço. Havia um sorriso perdido no seu rosto; não sei se estava os olhos, tão vivos, ou nas bochechas, aprofundando covinhas alegres. A menina era morena, cheia dos traços que os bombons e as balas furtivas a conferiram. Enlaçou os olhos nos meus e eu não tive coragem de desatar o laço.

 

Era a criança morena que eu, criança branca, fui. Abraçada ao rosto magro da mãe, tentava esconder o seu coração de mim. Logo eu, espírito que já desenterrou inúmeros corações de peitos áridos. Achei-o facilmente. Pulsava rápido sob o vestidinho de rendas desfeitas. Após se entregar sem derrota, tratou de procurar, com mãozinhas geladas, a minha pulsação.

 

Não sei o que ela encontrou em mim; o meu ponto de descida estava próximo e a nossa despedida foi rápida – um sorriso oculto, um enternecer de olhos, um abraço de espíritos. Saltei do ônibus para a calçada fervente e senti-me alisada por olhinhos leves.


Escrito por Vanessa Bencz às 11h13
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25/05/2007

Conto vencedor do 1o Concurso Jovem Escritor

EM SI MESMO

   Naquela noite, todas as luzes do mundo apagaram-se, ou assim apenas pareceu o universo para Julia. Só os aquários da Praça Nereu Ramos tinham permissão para luzir. Os peixes voavam como nuvens num céu de água. De quando em quando, flagrava-se alguma trovoada silenciosa em suas escamas. Este carrossel de monstros doces era a fria confirmação de que o ser humano é o mais obscuro abismo já cavado na pele do mundo.

   Caminhando pela praça, Julia deteve-se diante de um aquário triangular. Era como uma janela para um outono violeta, ou então o templo de uma pré-história violácea. Por entre setas fugazes, a moça vislumbrou um peixinho roxo, opaco e tímido. Lembrou-se que, em criança, ganhara um muito parecido. Numa manhã, Julia encontrara o peixe boiando de barriga para cima.

   Por ocasião de sentimentalismo ou rádio ligado, uma música do Oswaldo Montenegro marcara a perda. Durante muito tempo, a canção não deixou cicatrizar a rachadura da promessa de que sim, papai, vou alimentá-lo todos os dias. Outros bichos e outras canções e outras lágrimas vieram; para fugir das recordações ressequidas, Julia escondia-se na treva das pálpebras e suspirava.

   O maior aquário da praça era o universo de um único peixe. Julia sorriu ao imaginar que este animal fora tricotado vaidosamente com lã dourada pela natureza. Pestanejando de susto, a moça percebeu que este peixe era indiscutivelmente fêmea. Uma debutante em vestido amarelo, pesada com as rendas que a mãe lhe pendurou. Cata-vento de si mesmo, cata-água, translúcido, aurora de insônias, inquietamente uma mulher, tão pensamentos, tão humanidade, sim, tão humano e de uma incompreensão absurda, plenamente peixe, seguro de sua espécie e ao mesmo tempo maduro para assumir-se um papagaio ou uma sacola de pães. Se não fosse a maldita lei da gravidade que me prende a este chão, por deus, eu também seria feliz como este peixe amarelíssimo.

   Difícil dizer por quanto tempo Julia permaneceu pensando. Durante três minutos, ela desejou escuramente que suas mãos fossem barbatanas; a hipnose maravilhada estendeu-se por três semanas e nos três anos seguintes, Julia foi várias Julias, não necessariamente humanas. Três décadas depois, Julia Mendes seria apenas uma ilustração azulada para a expressão ensimesmar-se, no dicionário.

   Naquela noite, enquanto os peixes pisoteavam a dignidade dos humanos, Julia perdoava a matéria barrenta da qual tinha nascido. Perdoou também o frio cinzento, perdoou que suas barbatanas materializassem-se apenas nos sonhos, perdoou os dias chuvosos e as mentiras e as limitações. Sobretudo, perdoou que, hoje, seus olhos fossem cegos para o que não se vê.


Escrito por Vanessa Bencz às 09h49
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08/05/2007

Conto fora do ar:

Participando de Concurso!


Escrito por Vanessa Bencz às 15h15
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23/04/2007

Para a Evelyn, que gostou do conto.

INSTRUÇÕES PARA TORNAR-SE CRIANÇA

 

 

Primeiro: derrube o muro erguido entre o seu cérebro e a sua boca. Deixe as idéias tomarem forma de palavra e solte-as para brincarem nas suas cordas vocais, como a um violão. Faça o teste: se você conseguir confessar à sua avó o seu desgosto por chá de boldo, parabéns. Olhe-se no espelho. Não se assuste com o pedaço de céu que aparecerá nos seus olhos.

 

Segundo: olhe de frente o fantasma do seu medo. Cada criança cria um fantasma específico; por isso, aconselha-se que ele seja procurado em janelas muito altas, debaixo da cama, nos olhos do cachorro. Assim que o encontrar, prepare-se. Suas pernas vão tremer e seu coração vai socar a garganta. Levará alguns minutos para que este sentimento seja posto sob controle e torne-se um vício.

 

Terceiro: machuque-se de leve. Toda criança precisa de uma ferida ou de uma cicatriz ainda sensível para comover os outros. Os adultos têm o hábito de querer cuidar um do outro, e quando vêem uma criança com um machucado visível, derretem-se em carinhos. Todo o rancor de anos de guerra se dilui, distribuem beijos, doces, ora seja, tadinho dele. Dica: suba numa árvore e caia do galho mais baixo. Berre alto e segure a risada que teimará em explodir.

 

Quarto: tudo é motivo para choro e para riso. São emoções opostas que se encontram num horizonte à distância de três passos. Encontram-se nas seguintes situações: num tombo violento na escada; na decapitação de uma boneca; na súbita descoberta de que os adultos são crianças retorcidas.

 

Quinto: procure outras crianças. Elas estão em extinção, mas ainda podemos encontrá-las nas faculdades, debaixo das árvores, manejando violões, observando nuvens. É imprevisível, pois as crianças se disfarçam muito bem de adultos e principalmente de velhos. Elas possuem uma astúcia que ninguém tem em plena maturidade. No momento que você enxergar uma espinha de peixe numa folha seca de árvore, mergulhe a mão no bolso da calça e tire a primeira bala de morango.


Escrito por Vanessa Bencz às 10h46
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